E Outros Escritos da Virada do Milênio
"Para ele, o cinema deveria causar impressões, sugerir mil sensações e idéias, e não ficar entregando tudo mastigado ao público. Sim, no fundo, a mesma crítica feita à prosa narrativa, à poesia narrativa, à pintura narrativa, à fotografia narrativa e por aí vai. Com essa idéia em mente, quem faz cinema acha que narração é coisa de literatura e quem faz literatura acha que é coisa de cinema. Bobagem. Porque, afinal, ¿o que é narrar? Narrar é dar sentido, é encontrar um nexo nos acontecimentos caóticos do mundo. Narrar é ser profundamente humano. Narrar é humano. E não é uma tarefa fácil e “mastigadinha”. Apenas uma pessoa que vive da visão, tal como um guia de montanha ou um desses índios rastreadores, consegue encontrar na bagunça da vida real, com suas múltiplas ocorrências e fenômenos, um fio de Ariadne. O mundo — a vida tal qual é — já é por si só um emaranhado infinito de impressões disparadas contra nossa capacidade intuitiva, contra nossa aptidão para apreender o Real. ¿Que diferença faz se um criador, seja lá em qual gênero artístico atue, apenas deseja acrescentar mais um elemento impressivo ao mundo? Um a mais, um a menos... ¿E daí? Ok, pode até ser uma postura legítima caso ele seja um decorador, um designer, um artista plástico, um estilista de moda, enfim, alguém cuja arte seja expressa espacialmente, ou melhor, sincronicamente. ¿Mas isso é postura para um autor de cinema e literatura, para um criador cuja arte se dá no tempo, isto é, diacronicamente? ¿Ser um decorador do tempo alheio? No fundo, ele deixa de ser artista e se torna um artesão raso, com a diferença de que se torna um artesão com um ego enorme. É como se o artista criador de impressões — de “poesia”, acredita ele — não fosse senão mais um elemento da natureza, uma margarida, um lírio, um pavão. Ele deixa de ser um observador lúcido da vida (um autor) e se torna mais um figurante do mundo."