A cidade de Vila Nova parecia um lugar que alguém desenhara às pressas: três ruas principais, uma praça torta e casas que se repetiam como cópias cansadas umas das outras. Ainda não eram seis da manhã quando o despertador tocou, mas o céu já tinha aquela claridade pálida de cidades pequenas — um tipo de luz que ele detestava, porque deixava tudo exposto demais.
Matt abriu os olhos devagar, não por preguiça, mas por hábito. Gostava de sentir o silêncio primeiro. Ele sempre prestava atenção no silêncio.
A mãe, do outro lado da parede fina, já se arrumava para o trabalho — o emprego novo que ela nunca descrevia com detalhes, como se as palavras fossem frágeis demais para carregar o peso da vida. O pai continuava distante, como sempre, mesmo quando tentava mandar mensagens curtas para parecer presente.
No espelho, a blusa de moletom listrada dava a ele a aparência que mais lhe agradava: simples, invisível, quase simpática. Era útil. Roupa de garoto comum.
Mas os olhos… os olhos nunca enganavam.
Aos quinze anos, Matt tinha aprendido duas coisas importantes:
as pessoas só veem o que querem ver,
e toda cidade pequena guarda um lugar onde o silêncio é mais forte que qualquer grito.
Ele sorriu para o próprio reflexo — um sorriso treinado, perfeitamente natural — e calçou o All Star gasto.
Primeiro dia na nova escola.
Primeiro dia para observar.
E, se necessário, começar a brincar.
| Número de páginas | 14 |
| Edição | 1 (2026) |
| Idioma | Português |
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