Para compreender a gênese do tango, é preciso primeiro compreender a sua cartografia. O gênero não nasceu como uma abstração teórica em gabinetes de compositores, mas como uma resposta física e visceral a uma geografia humana específica. No final do século XIX, Buenos Aires e Montevidéu não eram as metrópoles cosmopolitas e monumentais que conhecemos hoje; eram cidades partidas, onde o centro opulento e de inspiração parisiense dava lugar, de forma abrupta, aos arrabales — os bairros periféricos, as franjas de terra batida onde o tecido urbano se dissolvia na lama e na marginalidade. Foi nesse território fronteiriço, banhado pelas águas turvas do Rio da Prata e marcado pelo cheiro de maresia e carvão dos portos, que o tango fincou as suas raízes mais profundas.
| Número de páginas | 76 |
| Edição | 1 (2026) |
| Idioma | Português |
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