Mateus Sousa
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Sobre o autor
É impossível falar de mim sem falar da minha origem familiar.
Minha avó materna veio do Rio Grande do Norte para o Rio de
Janeiro e trouxe seus 4 filhos, dentre eles minha mãe, ainda
criança. Passou inúmeras dificuldades para criar todos eles.
Aprendeu a costurar e assim conseguiu o mínimo de sustento para
alimentar a todos.
Meus avós paternos são da Paraíba, lá tiveram meu pai e mais 13
filhos. Desde os 8 anos de idade meu pai trabalhava para ajudar no
sustento da família. Durante sua juventude trabalhou para as
Grandes Usinas cortando cana. Juntou algum dinheiro e veio para
o Rio de Janeiro. Chegando ao Rio, conseguiu emprego como
ajudante de pedreiro na construção dos prédios da Barra da Tijuca.
Foi neste período que ele conheceu minha mãe. Eu nasci em 1998,
na zona oeste do Rio de Janeiro. Meus pais se separaram quando
eu tinha 1 ano. Meu pai voltou pra Paraíba onde casou de novo e
teve meu irmão.
Desde então fomos eu e minha mãe. Cresci em uma família
extremamente problemática e disfuncional. Desde criança eu
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sempre desejei Paz e Liberdade, mas às vezes sinto que nasci no
mundo errado. Ao todo, até o presente dia, já fiz 19 mudanças
entre casas e aluguéis, entre bairros e zonas do Rio de Janeiro.
Nestas viagens conheci muita gente e aprendi muito sobre as
diferenças de cada lugar. Por volta dos 15 para 16 anos saí de
casa. Estava no meu primeiro emprego. Fui contratado para ser
Forneador em uma padaria, onde ganhava 20 reais por dia
trabalhando entre 6 e 14h.
Logo neste primeiro emprego aprendi sobre as relações de
trabalho. Fui contratado para uma função determinada, mas na
verdade até serviços de padeiro eu já fazia. Dos 20 reais que eu
ganhava, gastava uns 6 reais por dia de passagem para trabalhar.
Fui instruído pelos funcionários mais velhos que eu tinha direito a
pedir a passagem e, ao fazer isso, o patrão achou que eu estava
tentando ser malandro. Bom, ele não me demitiu e passou a pagar
25 reais por dia, mas em compensação se tornou muito mais
exigente. Às vezes eu esperava uma hora além do meu horário
esperando para sair porque ele só me liberava depois que eu
tivesse limpado tudo. Sem problema. O problema era que eu
terminava tudo na hora e ele ficava bebendo por uma hora na
frente da padaria antes de entrar pra olhar meu serviço e me
liberar. Se eu o chamasse era repreendido, e ele dizia que eu não
deveria ter pressa para ir embora. Por fim, me dava um esporro
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dizendo que eu não ia passar da experiência por não ter tirado o
cestinho (aquele que junta resíduos) do ralo da pia.
Ao completar pouco mais de 3 meses e não ter a carteira assinada,
pedi demissão depois de ele me exigir que limpasse a caixa de
gordura (bueiro) da padaria.
Fiquei um período desempregado, uns 5 meses. Depois arrumei
um emprego em um mercadinho como repositor, onde naturalmente
eu fazia bem mais funções do que havia sido contratado para fazer.
Recebia 720 reais por mês, trabalhava de domingo a domingo e
folgava às quartas. Aos domingos eu trabalhava de 8h da manhã
às 20h da noite. Passei 6 meses neste emprego sem ter a carteira
assinada, também passei estes 6 meses sem faltar. Na minha
primeira falta fui demitido.
Sem emprego foi uma barra conseguir pagar o aluguel e esta foi
uma das fases mais difíceis da minha vida. Conheci algumas
pessoas... e acabei cometendo erros. Esse período conturbado da
minha vida também foi quando desenvolvi paixão pelo Rap (gênero
musical). Isso ao frequentar rodas de rima e ficar fascinado com
aquilo, o que me ajudou muito a tomar as decisões que mudariam
minha vida.
Aos 17, quase 18 anos, estava saindo da Favela do Antares em
Santa Cruz quando recebi uma revelação. Eu tinha saído da igreja
aos 14 anos e naquela fase da vida eu era completamente rebelde,
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sentia ódio de tudo. Mas naquele dia eu decidi ouvir. Quem me
conhece daquela época lembra de uma frase que eu dizia com um
sorriso no rosto: “Eu não vou passar dos 20 anos. Eu sabia que se
não mudasse não ia durar muito, mas as contas e as necessidades
não esperavam o tão sonhado emprego bom vir, ou a escola que
eu larguei, ou então a ajuda que não viria. Naquele momento era
eu sozinho no mundo com todo meu ódio e frustração. A violência
era algo cotidiano, era traumático ver o vídeo de um amigo que
apertou sua mão de manhã dizendo que tudo que ele queria era um
emprego estável para mudar de vida sendo esquartejado e
queimado vivo na mesma noite. E ainda mais perturbador saber
que você será o próximo.
Após aquela revelação eu entrei em contato com a família, fazia já
um bom tempo eu não falava com ela. Meu pai, que soube pela
boca de algumas pessoas o que estava acontecendo comigo, foi
me buscar e me dar uma oportunidade para mudar: eu decidi que
iria mudar.
Voltei para a igreja, comecei a trabalhar na obra junto com ele e
voltei a estudar durante a noite, para completar o segundo grau.
Aquela fase da minha vida foi fundamental não só para eu ser
quem hoje sou, mas também o motivo de eu estar aqui.
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Cerca de dois anos depois eu estava habilitado na categoria B e
entrando para o curso de engenharia de produção na Universidade
Cândido Mendes, em Bangu.
Infelizmente a vida não é um mar de rosas e, apenas pelas
aparências se poderia dizer que estava tudo ótimo. Bem, quem
tivesse me visto no Rodo e no Antares não me reconheceria mais.
No entanto, eu trabalhava na construção civil, e quem trabalha nela
sabe o quanto é desgastante. Agora, imagina bater laje o dia inteiro
e à noite fazer provas de cálculo 1, só com o almoço de meio-dia
na barriga... Ao fim do mês meu salário era de 1.200 reais, o maior
que eu já tinha recebido na vida até meus 19 anos. E a
mensalidade da faculdade, na qual eu tinha bolsa de 70%, passou
dos iniciais 529,00 reais para mais de 800 reais apenas no terceiro
período. Foi aí que eu vi que até o fim da faculdade eu estaria
pagando cerca de 2.000 reais por mês. Eu mal conseguia pagar
minha passagem, tinha mais de 800 de mensalidade na faculdade
e auxiliava meu pai com 300 reais por mês (Obrigatoriamente). Só
aí já ia embora meu pagamento de 1 mês inteiro batendo laje e
virando concreto no sol 40 graus.
Quando a obra ficou pronta o dono da obra viu que eu era
inteligente e bom com números e me deu um emprego como Fiscal
de Caixa na loja dele. Meu salário caiu para 1.090 reais, perdi as
folgas de sábado e domingo que eu tinha na obra, mas só de não
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estar virando massa no sol eu já estava bem feliz. Agora minha
vida era acordar às 5h, sair do açougue que trabalhava como fiscal
até as 16h30, chegar na faculdade às 18h, sair de lá às 21h, chegar
em casa às 22h50, jantar e fazer brigadeiros para vender na
faculdade e assim ganhar um dinheiro a mais. Até o brigadeiro
ficar pronto já era por volta de uma da manhã.
Decidi sair da casa do meu pai e voltar para o aluguel. Ficou
insustentável e eu tive que trancar minha matrícula na faculdade.
Até hoje devo por volta de 2.200 reais a eles (risos de nervoso).
Logo depois fiquei desempregado de novo, voltei para a obra, e lá
fiquei até fevereiro de 2018, quando consegui um emprego no
Recreio dos Bandeirantes. Era a primeira vez que eu começava a
andar para aqueles lados, meu bairro era muito isolado. Lá fui
trabalhar em um restaurante 5 estrelas onde tive mais contato com
a burguesia. É, eu servia pizza no prato deles. Lá eu ganhava cerca
de 1.180,00 + passagem, e passei 7 meses neste emprego sem
assinarem minha carteira. Não vou entrar em detalhes sobre como
era a relação de trabalho pois vocês já devem imaginar, eu
trabalhava em um restaurante 5 estrelas com alta rotatividade de
funcionários dentro do Américas Shopping. Lá trabalhava das 17h e
até mais ou menos 1h30 da manhã, pegava cerca de 2 horas de
BRT para voltar para casa e muitas vezes não havia condução do
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BRT pra minha casa, então tinha que voltar andando por volta das
3h30 da manhã.
Fiz várias amizades nesse emprego, com irmãos de diversas
favelas que trabalhavam comigo. Cidade de Deus, Rio das Pedras,
Rocinha etc. Comecei a conhecer os locais indo para os bailes
junto com eles durante as madrugadas, já que voltar para casa era
igualmente cansativo e longe, então pelo menos eu me divertia e
dormia por lá, porque era mais perto do trabalho.
Saí desse emprego em agosto de 2018, e a esta altura eu já tinha
me mudado para a favela da Rocinha. Desempregado passei todo
tipo de aperto e minha família só foi saber que eu estava morando
por lá depois de uns 2 ou 3 meses. Ficaram decepcionados e com
medo de algo acontecer, já que naquela época tinha acabado de
acontecer a guerra.
Em novembro de 2018, eu consegui um emprego como copeiro na
Barra da Tijuca. De novo super explorado, salário baixo e pior,
atrasado. Saí de lá em fevereiro de 2019 e, nestes 3 meses, recebi
apenas o primeiro salário. Passei muita necessidade, era péssimo
estar fazendo tudo certo, buscando um emprego para melhorar e
realizar meus objetivos e ver que todo dia a patroa fazia o cabelo,
mas não pagava os funcionários. Nesta época passei uma das
maiores dificuldades da minha vida. Mas também foi nesta época
que conheci minha atual esposa, Gisele, que é professora de
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História e, sem dúvidas, alguém que mudou minha vida para
sempre. Eu sempre enxerguei e senti na pele os problemas da vida
na cidade, mas apenas tendo acesso à educação que pude de fato
compreender a minha existência.
Passei mais um período desempregado e apenas em abril fui
receber os outros dois meses que tinha trabalhado, junto com a
rescisão do contrato. Tinha aluguel para pagar, contas e etc. Minha
esposa e meus manos me ajudaram muito nessa época.
Em abril entrei na empresa que estou até hoje. Com mais
estabilidade e trabalhando em Ipanema, pude ver como as relações
de trabalho mudam em diferentes bairros do Rio de Janeiro e como
as condições de vida do ambiente em que se vive interferem
diretamente em quem você é. No mesmo mês entrei no projeto das
Brigadas Populares da Rocinha e para o pré-vestibular Só Cria,
projeto social que visava colocar jovens de áreas carentes dentro
de universidades públicas. Este foi um espaço de transformação
para mim, fiz amizades que quero levar pra vida toda e acreditei
pela primeira vez que podia entrar para uma universidade pública e
mudar não só minha vida, mas a história da minha família.
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