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Há livros que nascem de um projeto e livros que nascem de uma urgência. "Convexo e Reconvexo", estreia de Olivia Pearce, pertence claramente ao segundo grupo. Reunindo dezanove textos de prosa poética confessional, a obra é o resultado de uma vida inteira de escrita feita em segredo — num caderno, sem nome, sem destino — e que, pela primeira vez, decide ser lida.
Brasileira radicada em Portugal, a autora publica sob pseudónimo e faz da própria língua um território de identidade: o português do Brasil e o de Portugal convivem nas páginas em total harmonia. Não é descuido, é escolha. Na nota que abre o livro, Pearce afirma que não aceitou polir os textos para caberem num só sotaque, "quando as duas vivem em mim".
O que se lê é um mosaico de registos. Há a poesia com dispositivo formal e rima interna ("Eu Não Sei Amar Pouco"); a crónica de memória ("Pequenos Grandes Detalhes", sobre cinquenta anos de um casamento visto de uma janela); a carta ("Minha Querida M."); o texto escrito à beira de um tratamento oncológico, que dá título ao livro; e, no fecho, um samba. A fé de matriz afro-brasileira, vivida sem folclorização, atravessa vários textos, sobretudo "Atotô Meu Pai, Atotô", em que o gesto de preparar um banho de ervas para quem se ama doente se torna, ao mesmo tempo, oração e ato de cuidado.
Para além disso, surgiu ainda uma nova componente que Pearce considera particularmente relevante para o projeto.
O texto final de Convexo e Reconvexo: “Um samba que fiz pra ti”, como forma de presentear seus leitores, com muita sensibilidade o transformou em melodia, levando para os leitores a vivenciar uma no experiência para além da leitura.
Assim ao final desse texto: "Um Samba que fiz para Ti", foi integrado um QR Code associado a esse texto, através do qual o leitor poderá aceder, com exclusividade, a canção que dele nasceu.
Considero que esta componente poderá conferir a "Convexo e Reconvexo" uma identidade particularmente própria e diferenciadora que o leitor poderá experenciar.
O maior mérito do livro está na recusa do meio-termo. Pearce não suaviza a raiva ("O Diabo que não te Quis"), não embeleza a culpa, não finge consolo onde ele não existe. O título aponta o gesto que organiza a obra: reordenar as mesmas palavras para mudar a perspetiva sobre a mesma verdade — não para mentir, mas para tornar suportável o que, de outro modo, esmagaria.
Nem tudo é igualmente polido. A escrita, assumidamente orgânica, tem a aspereza de quem escreve por necessidade e não por estética. Mas é justamente essa aspereza que sustenta a verdade do conjunto: aqui, a imperfeição não é falha, é autenticidade.
"Convexo e Reconvexo" é um livro para quem já sentiu tudo, e tudo ao mesmo tempo — e para quem procura na literatura não um abrigo bonito, mas um lugar onde a dor possa finalmente ter nome.
Selos de reconhecimento
Biografia bem definida Sua página biográfica tem foto e um texto com pelo menos 300 caracteres sobre o autor