Mateus pressionou o polegar
manchado de tinta sobre o versículo,
deixando uma impressão escura entre
duas linhas do salmo.
O caderno azul
repousava sobre a caixa de tipos, e
cada letra metálica parecia pesar mais
que a própria palavra. Debaixo do
assoalho, a prensa respirava madeira
úmida, tinta, sabão e o sono
interrompido da oficina de Anselmo
Duarte.
À sua frente, a Bíblia herdada da
mãe permanecia aberta, com as
páginas gastas nos cantos onde ele
procurava coragem. Lá fora, os sinos
pertenciam à igreja, a praça obedecia
à Câmara, e os homens sem leitura
entregavam documentos às mãos
alheias. Quando Mateus tentava ler
em voz alta, a língua se prendia,
sobretudo diante de qualquer
autoridade, e a frase mais simples
ganhava o peso de uma ameaça.
Ele baixou a cabeça e copiou outra
vez: os humildes herdarão a terra.
Então os cascos de um cavalo
golpearam a rua, rápidos demais para
aquela hora, fazendo tremer os tipos
dentro das gavetas. O jornal amassado
vinha sob o braço de um tropeiro е
trazia uma palavra que ainda não
cabia na boca de ninguém.
| Número de páginas | 28 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Offset 75g |
| Idioma | Português |
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