dizem que as células da pele se renovam a cada duas a quatro semanas, que as do fígado demoram entre trezentos e quinhentos dias, que as do estômago e intestino vivem apenas dois ou cinco, que os glóbulos vermelhos duram cento e vinte, e até os nossos ossos, que parecem eternos, se refazem por inteiro em cerca de dez anos. e eu penso que um dia, talvez, nada em mim terá te conhecido. nenhuma célula da minha pele lembrará o teu toque, nenhuma fibra do meu corpo guardará vestígios teus. um dia, segundo a biologia, eu serei inteira novamente. mas isso soa bom demais, não acha? habitar um corpo que não tenha mais nada relacionado a você, que um dia terei um corpo que você jamais terá tocado. o meu azar é que ainda existem partes aqui que se recusam a recomeçar. os meus neurônios piramidais do córtex cerebral ainda continuarão guardando teus traços elétricos, ainda vão disparar sem meu consentimento memórias que nem o tempo será capaz de me fazer esquecer. minhas células miocárdicas, que quase nunca se regeneram, ainda vão bater no mesmo ritmo em que te amaram pela primeira vez, ainda vão seguir pulsando no mesmo compasso desde o primeiro dia em que encontrei você. acho que esse é o azar de quem um dia teve a sorte de amar demais, viver num corpo novo, mas com resquícios antigos demais para esquecer o que um dia me atravessou o peito.
| Número de páginas | 254 |
| Edição | 2 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Couche 90g |
| Idioma | Português |
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