Num livro cujo tema é a permanência do sentido através do tempo, convém que a sua soleira seja, ela própria, um pequeno enigma de tempo: a página escrita no fim para ser cruzada no princípio. Confesso a origem deste livro pela porta certa: ele nasceu de um texto de jornal que se recusou a morrer. Publicado em 2007 para um dia determinado, continuou a falar muito depois de extinta a circunstância que o motivara . Aprendi com ele a distinguir a data de um texto da sua hora. Há escritos que têm data e não têm hora: nascem e expiram com a notícia que os provocou. Há outros que têm uma data e uma hora que não coincidem com ela - foram escritos então, mas endereçam-se a agora. Lê-los é receber uma carta antiga cujo destinatário, descobrimos com sobressalto, somos nós.
O que tornou aquele texto durável não foi a polêmica - essa envelheceu, como envelhece todo combate preso ao seu dia. Foi o mecanismo que o olhar do autor surpreendeu por baixo da polêmica. A querela é o corpo perecível de um texto; a estrutura que ela ilumina, a sua alma. Prefaciar este livro é dizer, antes de mais nada, que fui à procura da alma sob o corpo perecível, e que deixei o corpo onde o encontrei, no calendário de 2007, levando comigo apenas o que nele não tinha data. Fiz isso pela única via que conheço: a do comentário. Há quem suponha que comentar seja ofício menor, gesto de quem não tem o que dizer e por isso glosa o que outro disse. É o contrário. A filosofia quase sempre pensou comentando....
| Número de páginas | 128 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Couche 115g |
| Idioma | Português |
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