Há dívidas que se contraem por escrito e se pagam com a vida inteira. Na segunda edição de A Arquitetônica do Sentido, a que dei o subtítulo de A Planta da Casa, contraí uma dessas. No quarto capítulo, depois de decidir que o sentido é uma relação mista e que o passado dura como potência depositada, cheguei ao ponto em que toda a construção pedia um alicerce, e escrevi que a ordem que mede a consciência é participada, e que a consciência que a compreende participa da mesma fonte de inteligibilidade. Logo em seguida, com a honestidade que um sistema aberto deve a quem o lê, acrescentei que aquela doutrina era ali adotada como fundamento e não desenvolvida em todas as suas partes, porque isso exigiria outro livro, e talvez outra vida. Este é o outro livro. Quanto à outra vida, não a tenho; tenho apenas esta, e resolvi gastar um pedaço dela em pagar o que devia.Uma planta, disse eu naquele prefácio, não é menos bela do que uma casa, mas a sua beleza é de outra ordem. Poderia dizer agora que um alicerce não é menos necessário do que uma planta, e que a sua necessidade é de outra ordem ainda. A planta mostra-se; o alicerce esconde-se. Quem visita uma casa percorre as salas, admira a proporção das janelas, aprova ou reprova a disposição dos cômodos, e raramente pensa na pedra enterrada que impede tudo aquilo de afundar. Só pensa nela quando a parede racha. Há filosofias que só descobrem o próprio fundamento no dia da rachadura, e descobrem-no tarde. Preferi descer ao porão...
| Número de páginas | 85 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Couche 115g |
| Idioma | Português |
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