Há um ditado, repetido em um documentário, segundo o qual o futuro acontece primeiro em São Francisco. A frase é dita com um sorriso meio envergonhado, como quem confessa um privilégio e uma doença ao mesmo tempo. O mesmo depoente acrescenta que tem amigos que passam mais tempo conversando com as inteligências artificiais do que com as pessoas, que vivem numa bolha, e que ele próprio se inclui um pouco nela. Poucas vezes uma obra de divulgação confessa com tanta franqueza, logo de saída, a sua própria condição epistemológica: quem vai nos contar o que aconteceu é alguém que admite olhar o mundo através de um filtro, e que sabe disso. Comecemos por levar a confissão a sério. Ela não é um detalhe de estilo: é a chave de leitura de tudo o que vem depois. Quando um homem passa a conversar mais com máquinas que falam do que com homens que falam, algo se desloca no eixo da sua experiência. O mundo continua lá, com seus corpos, suas dores, suas promessas, mas o centro de gravidade da atenção migra para um interlocutor que responde sem ter estado em parte alguma. Um nome foi dado a uma doença intelectual vizinha dessa: a paralaxe cognitiva, o deslocamento entre o eixo da experiência real de um pensador e o eixo da construção teórica que ele propõe, a ponto de a teoria já não caber na vida de quem a formula. O documentário, sem o saber, abre com uma confissão de paralaxe: o futuro que acontece primeiro em São Francisco acontece, antes de tudo, dentro de uma bolha...
| Número de páginas | 118 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Couche 115g |
| Idioma | Português |
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